
A umbanda tem o privilégio de ser uma religião tipicamente brasileira. Diferente do candomblé, que manteve em sua estrutura as questões principais da religião africana original — embora ele, também, seja pleno de adaptações nacionais — a umbanda modificou totalmente a sua essência, estabelecendo um sincretismo com três GRANDES correntes religiosas do Brasil: o catolicismo, o espiritismo e a religião dos orixás.
A origem desse culto, que mais tarde transformou-se em uma corrente religiosa, deu-se na época da escravidão, onde os negros vindos da África para prestar um trabalho forçado que lhes tolhia a liberdade, em um país estranho e com hábitos diferentes daqueles aos quais estavam acostumados, traziam usos e costumes próprios, para a nova terra. Esses negros adoravam deuses relacionados às forças elementares da natureza. Nisso eles tinham semelhanças com os nossos índios e caboclos que também representavam um quinhão respeitável dentro da sociedade colonial.
Com a estreita convivência entre o índio, o caboclo e o negro, os cultos diversos passaram a se misturar e criar crenças comuns. A proibição dos fazendeiros e obrigatoriedade do batismo católico, bem como a catequese constante dos jesuítas, fez com que os negros enterrassem sob a imagem de determinados santos, seus objetos de adoração; isto fazia com que, ao pé de cada santo da igreja, repousasse a oferenda a determinado orixá, que passava a adotar o nome daquele santo.
Com o passar do tempo, esse sincretismo foi se tornando comum, até ao ponto em que a imagem do santo possuía a mesma força mística dos assentamentos primitivos. O sincretismo com o espiritismo se deu por conta da possessão que o orixá exercia sobre o seu ‘filho’, de maneira que este se transformava adquirindo a personalidade da ‘emanação’ que se incorporava. Com a codificação da doutrina espírita, o termo médium passou a ser usado para nomear os ‘aparelhos’ da incorporação desses orixás.
O tempo foi passando e foram sendo introduzidas outras entidades, tais como preto-velhos, caboclos, índios, crianças e povos do oriente. Todos especialistas em atender a consultas, tanto de ordem física, através de chás, banhos e poções curativas, como por intermédio de ‘trabalhos’ de cunho espiritual apropriados para a ‘abertura de caminhos’ e combater o ‘olho grande’ ou, até, ajudar em questões financeiras e amorosas.
A umbanda, hoje, já se disseminou por diversos países, principalmente da América do Sul; para esses devotos, o Brasil assume a primazia como grande orientador religioso, da mesma forma que a África se coloca, com relação ao candomblé.
Para gerir e unificar os ritos, a maneira de adoração e condução dos trabalhos, foi fundada a Federação Umbandista Nacional, visando cadastrar todos os ‘terreiros’ (local do culto). Para ser reconhecido o ‘terreiro’ deve estar filiado à Federação, mas, como tudo nesse país fica sempre devendo, nem todos os locais onde se pratica a umbanda cadastrou-se. Aliás, presume-se que a grande maioria não esteja federada.
Os conceitos umbandistas estabelecem critérios bastante definidos. Apesar de existirem discrepâncias regionais, de uma maneira geral, os cultos obedecem a alguns pontos comuns, dos quais uma parte, listamos abaixo:
1. A existência de uma fonte criadora universal, um Deus supremo, chamado Olorum. Algumas das entidades, quando incorporadas, podem nomeá-lo de outra forma, como
por exemplo, Zambi para pretos-velho ou Tupã para caboclos, mas são todos, consequentemente, o mesmo Deus.
2. A obediência aos ensinamentos básicos dos valores humanos, como: fraternidade, caridade e respeito ao próximo. Dentre eles a caridade é uma virtude recomendada em todas as manifestações existentes.
3. O culto aos orixás como manifestações divinas — alguns umbandistas praticam a chamada umbanda branca que não diviniza os orixás; esta é unicamente voltada ao culto dos caboclos, pretos velhos e crianças — onde cada entidade controla e confunde-se com um elemento da natureza — ou da própria personalidade humana — em suas necessidades e construções de vida e da sobrevivência.
4. A manifestação dos Guias para exercer o trabalho espiritual incorporado em seus médiuns ou ‘aparelhos’.
5. O mediunismo como forma de contato entre o mundo físico e o espiritual, manifestado de diferentes formas.
6. Há uma doutrina, uma regra e uma conduta, tanto moral quanto espiritual, que é seguida em cada organização, às vezes de forma variada e diferenciada. O ideal seria funcionar como um padrão que norteasse os trabalhos de cada terreiro.
7. A crença na imortalidade da alma.
8. A crença na reencarnação e nas leis kármicas.
Como em outras religiões a umbanda tem seus lugares sagrados onde os membros se reúnem para praticar seu culto. O principal lugar é o Templo, que também é chamado Terreiro ou Centro; é neste local que os umbandistas se encontram para realização de seus preceitos religiosos, que dizem respeito aos seus guias ou caboclos; no linguajar religioso chama-se as ‘giras’.
O chefe do culto no Centro é o Sacerdote ou Sacerdotisa — podem ter outros nomes, como Babá, Zelador, Dirigente, Diretor de culto ou Mestre, sempre dependendo da
forma escolhida por cada terreiro. O Conselho Diretor deve ser formado pelos médiuns mais experientes e com maior conhecimento, normalmente os fundadores do terreiro. São eles que coordenam as sessões ou ‘giras’ e que irão incorporar o ‘guia-chefe’, que comandará a espiritualidade e a materialidade durante os trabalhos.
Vale lembrar que o termo pai-de-santo ou mãe-de-santo não deve ser aplicado na religião de umbanda, pois estes termos são oriundos do candomblé, que é, como já dissemos, uma religião diferente.
Fernando Gimeno
(Fergi Cavalca)
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